O termo “austeridade”, associado aos efeitos negativos da crise financeira, tem também um significado positivo que deve ser redescoberto, considera Bagão Félix, antigo ministro das Finanças.
"Austeridade” é uma palavra “gasta” mas que é “muito bonita” porque “significa a clarividência e a lucidez da renúncia”, explicou.
Ao apresentar as suas perspetivas para 2012, o conselheiro de Estado sustentou que muitas pessoas tem dificuldade em distinguir o essencial do acessório: “Endividaram-se com o fútil e o inútil e perderam a noção do útil”.
O ex-presidente da Comissão Nacional Justiça e Paz, da Igreja Católica, salientou que a aprendizagem do rigor é essencial: “Ninguém é educado na permissividade e na abundância, mesmo que a possa ter”.
“Nós somos verdadeiramente educados na capacidade de saber escolher e, portanto, de renunciar”, frisou Bagão Félix, que constatou a existência de famílias que “não educam os filhos para a austeridade” e para uma “ética de exigência”.
O economista realçou a importância da educação para os valores, dado que uma das principais causas da crise é, apontou, a “dissolvência da fronteira entre as noções de bem e mal na economia e na sociedade”.
O desaparecimento destes conceitos conduziu a chegada de um “novo conceito ético”, o “indiferente”, referiu.
A moral não está juridicamente regulamentada e por isso “não há nada que proíba a ganância, o ódio, a inveja, a cupidez e arrogância, assim como não há nenhuma lei que obrigue a solidariedade, a partilha, amizade e lealdade”, afirmou.
Em Portugal a redistribuição dos rendimentos está a ser feita “com grande desequilíbrio contra a parte salarial” e o Estado não consegue responder a todas as solicitações sociais porque está a fazer “um esforço muito maior do que se deveria exigir” face as necessidades dos mais carenciados.
Bagao Félix assinalou que 2012 “é o ano de todas as convergências negativas próprias de uma recessão”, mas acentuou que é preciso olhar positivamente para o futuro, não com um “otimismo bacoco” mas com uma “esperança lúcida”.
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